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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Matemática

Foi pelos idos de 2000 que eu finalmente concluí o segundo grau por apostilas e sem professor, no Centro de Estudos Supletivos de Niterói.
Levei 8 anos pra fazer isso, pois vivia me mudando de estado, cidade e humor, devido a ser nesse entremeio que eu fui militar, pai adotivo, usuário crônico de cocaína, louco abstêmico e semi-pastor evangélico. E agora, semi-desiludido.
No fim desse conjunto de aventuras, decido pegar o conteúdo final do curso. As temíveis apostilas oito e nove, de Química, e também as vinte apostilas de Física e Matemática. Eu havia me saído muito bem, como sempre desde menino, em História e Português, mas nas exatas eu nunca me aí bem. Gostava de Geometria, mas fugia dos cálculos. Nem imaginava que Cálculo também é uma matéria inteira dentro de Matemática. Aquilo me dava dor de cabeça e sono.
 Deitei no sofá eu comecei a olhar, ainda em Química, as malditas fórmulas e tentar entender o que queriam dizer aqueles "x" e "y", aquelas letras e números. Larguei de lado, fumei um beck e peguei a apostila um de Física. Que horror! Melhor tentar a de Matemática. Tanto pior.
 Olhei pro teto e fiz uma oração. Era um semi-desiludido, ainda tinha esperanças em deus e tal. Disse que se não viesse do além de eu entender aquilo, eu nunca entenderia. E dormi com apostila no peito, chapado.
 Quando acordei , olhei já com raiva para a apostila. Era o mesmo e nada tinha mudado. Mas ao olhar para os números, alguma coisa aconteceu. Eu Entendi!
Peguei as apostilas uma por uma e fui fazendo, de uma maneira que nunca havia acontecido. Lia , fazia o exercício, ía até o CES e fazia a prova. E gabaritava!!! Gabaritava Matemática e Física!!! Química, nem incomodou.
 Um milagre a mais para deus e tal.
Terminei o segundo grau e não fui além. Levei bomba no vestibular de Teatro, que foi coincidentemente quando descobri que adorava teatro, mas não queria representar no palco ninguém  além de meu próprio personagem. E o milagre foi em vão.
 Mas continuei estudando Física e Matemática. Pouquinho e com liberdade de leigo. Por gosto que criei mesmo. Fui conhecendo as outras ciências e o ser humano através delas.
 A Matemática me levou aos filósofos, os filósofos acabaram com minhas ilusões.
Deixei de ser supersticioso e de ter confianças vãs. Aprendi o valor da vida e do ser humano. E através das Ciências Humanas cheguei à psicanálise, no campo da Psicologia. Aprendi o que é o subconsciente e até o que é o inconsciente. E me aventurando na Biologia, o que é memória.
 Lembrei de deus e tal. Coloquei todos os milagres sob nova investigação.
 E deus e tal subiram no telhado...
 Como foi que eu cheguei a ser ateu? Eu que vi milagres?
 Me lembrei que o conhecimento não nasce com o homem. Ele entra pelos sentidos e se acumula em memórias nas camadas de consciência da mente, armazenada em caminhos de memória no cérebro. Por onde uma sinapse se formou entre os neurônios, o caminho pode ser refeito. Se não for danificado ou atrofiado pela falta de exercício, ou ainda modificado por um trauma, o conhecimento ficará armazenado no cérebro, em um caminho de eletricidade bioquímica, no centro e no lobo cerebral a que pertence.
    E na mente? Como funciona o conhecimento na mente? Ele se forma junto com ela, com cada sinapse formada e perdida, ela se conforma, se a sua mente consegue entender os símbolos apresentados, significa que você foi exposto ao conhecimento que o formava. Tendo já na mente e no cérebro os caminhos que você percorreu. E particularmente na mente, tenha você entendido ou não no momento da experiência, cedo ou tarde ela fará uma associação com as informações.
 Os impulsos e negações ou afirmações da mente em ato reflexo, tornados conscientes ou não, vão descer pelas camadas da mente, e se relacionar livremente no inconsciente, provocando ondulações nas névoas do subconsciente, e atravessando as camadas da mente, uma vez relacionadas, emergirão como entendimento da informação absorvida e relacionada. Como um estalo. Uma idéia. Uma luz vinda das profundezas da escuridão, formada por combustíveis, comburentes e faíscas e reações adquiridas e perdidas no tempo.
Quanto tempo leva até isso acontecer ? Não há medição de tempo no subconsciente, e nem mesmo existe forma de tempo no inconsciente. Não há orientação ali. Acontecer e coincide com o tempo aqui.
 Foi assim que depois de anos de escola e esforço, um dia emergiu das camadas da minha mente o sentido que havia em toda física e matemática que eu havia visto desde criança. E também toda a lógica e o sentido que eram necessários pra entender aquilo tudo.
 Talvez a trasferência de responsabilidade tenha facilitado o trânsito da luz vinda das trevas, talvez o beck, ou o sono. Mas aquele conhecimento, como qualquer outro, não veio de fora, e sim de dentro. Emergiu da mente, e não aterrizou no cérebro. Veio de mim, e não de deus e tal.
Aquele entendimento foi o que me levou a ser o ateu que sou hoje.
Sou ateu pelo resultado de uma reza, um desejo. E esse desejo foi atendido por mim. Desde aquela tarde, até o dia de hoje. Eu quero entender o máximo que puder disso tudo. E já entendo Física e Matemática, um pouco.
Um feito a mais pra mim.
Um milagre a menos pra deus e tal.
"Não há deus..."
Somos todos os tais.                    


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