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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Tamojunto.

Ela olhou fixamente para mim e deu um sorriso. Forçado, mas sorriso. Dentes, arco, quase-covinhas e até aquele suspirinho de antes de falar.
-Oi, tudo bom? Meu nome é Ana e eu já vi você aqui umas duas vezes.-humpf-
O ônibus deu  um pequeno tranco pra voltar a andar. Alguém passou roçando o lado nela. Aquela dancinha coletiva do ônibus na mesma direção e volta. Olhou pra cima, mas não xingou, estava acostumada. Melhor isso do que ir em pé.
Tinha grandes olhos verdes com os quais parecia querer sugar a vida pra dentro da cabeça, mas já mostrava o fastio de ter devorado bons pedaços de uma vez, traduzido em olheiras pequenas mas já visíveis mesmo abaixo da maquilagem. O batom demonstrava a mesma coragem desbotada.
 Aliás, desbotado era o grito. Não, desbotando. Bem no começo. Aquela falsa esperança. Cedo.  Querendo ainda se agarrar a uma possibilidade de mudança. Aceleração, direção ,movimento. E como resposta, o tédio.
 O tédio recente é uma fase estranha nisso, não vê nada acontecer, mas ainda pensa que vem aí. Cruza e descruza as pernas. Não há o que fazer, mas não quer dormir e se deixar perder a compostura. Babar na almofada do sofá, depois de escorregar até quase deitar, deslizando como uma lesma.
 E o caderno. Todo rabiscado. Com uma frase de Nietzsche... ''morreu de sua compaixão pelos homens". Coisas que não era preciso ler duas vezes e se tornava bagagem pra toda vida. Peso útil, mas peso.
 Quando desceu os olhos pra retornar a frase, não pode.
 -Tudo bom sim, Ana. Mas a gente não tem mais tempo de conversar. Já estou descendo. E também não precisamos tanto assunto só porque estamos juntos nesse movimento, se é que se pode chamar assim.
 -Você já percebeu que as coisas demoram a mudar. Parecendo que não mudam. Até que se veja que mudaram mesmo, e muito, e muito rápido. Apenas não percebemos, pois estávamos imersos na mudança, mudando no mesmo ritmo imóvel. Tentando decifrar a entropia, nos deixamos sentir demais os movimentos do derredor. Indo rápido demais nas quedas, e forçando tudo nos acessos.
 - Você está procurando companhia depois de ter escolhido uma planície vazia. Desprezou a órbita comum e escolheu uma alongada. preferiu encontros fantásticos, mas raros. E agora vai se tornando um cometa sem brilho, longe demais do sol. Como um imenso bólido de pedra, metal e gelo. Vagando ao aparente esmo do lado escuro, perto da cerca de trás, do quintal da própria casa.
-E você vai brilhar de novo. Mas deve se lembrar desse ônibus. Desses pequenos trancos. Da dança coletiva dos escravos solitários da direção única. Até que você se sinta tão bem na cerca escura, quanto era na infância, ao brincar na varanda ensolarada.
 -Porque não temos como perceber o movimento, até que seja tarde demais. E não temos como ter de volta a sensação da aceleração ao descobrir que mesmo aquela fazia parte desta. Era apenas mais uma parte. mais uma peça.
-Tenho que ir. Fique bem. E se não voltarmos a nos ver. Se demorar a se mover. Um dia a gente se encontrará de novo de um modo suave. Sem se bater e talvez nem se tocar. Vamos nessa.
Tamojunto.
 Na inércia.
 Desci do ônibus no meu ponto. Aproveitando o solavanco pra alcançar o meio fio. Aqueles passinhos pulados pra equilibrar. Andar de novo entre todo mundo. Fluir.
 Já era.

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