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terça-feira, 12 de maio de 2015

O maior artista do mundo.

Numa dessas tarde frias de maio, dois músicos andavam pelas ruas e conversavam sobre quem teria sido o maior artista de todos os tempos na música.
O mais novo falava de mitos como Miles Davis e John Coltrane, enquanto  mais velho simplesmente meneava a cabeça e ria da opinião inocente do rapaz.
-Os maiores mesmo nunca  são reconhecidos, rapaz. Estes eram grandes músicos , mas não os maiores artistas da música.
Continuaram andando até que começaram a ouvir o pior assobio do mundo.
O assobio falhava, engasgava, desafinava, colocava pausas entres notas que tornavam a música difícil até de reconhecer.  Autumn Leaves, uma antiga canção francesa que todo músico de jazz conhece. Mas como soava mal...
-Está ouvindo o assobio, rapaz? -Perguntou rindo enquanto paravam para o velho acender um cigarro.- é o melhor artista da música do mundo!
 O jovem parou e fez aquela cara de quem bateu num muro invisível.
 -É rúim!!!-Exclamou colocando o acento na vogal errada, como se faz em São gonçalo, especificamente com esta palavra, para dizer que duvida do que foi dito, Da mesma forma que se diz "Caô!", no Rio.
 -Escute a  música, ele vai repetir o tema agora.
 Quando o tema se repetiu, as  notas continuavam faltando e engasgando , mas ainda se reconhecia o tema. Como era muito bom de ouvido e memória, reconheceu que as notas que faltavam não eram as mesmas e como continuavam caminhando na direção damúsica , começou a ouvir além do assobio, sons como de alguém tomado sopa ou algo parecido, que quanto mais se aproximavam, mas rivalizava com a altura e o andameto da  própria música.
 Agora já percebia que na verdade era o som desssa estranha sucção acompanhada de algo rasgando, despedaçando, sagrando ou cuspindo algum tipo de líquido e restos, é que atrapalhava o som da música , causando interrupções bruscas e aleatórias no assobio.
 Ao virar a esquina, num lugar que parecia outro mundo, perdido no tempo e no espaço, ou até mesmo perdido do tempo e do espaço, se deparou com a imagem mais estranha de sua jovem existência:
 Um velho de longa barba e roupas muito sujas, com um chapéu razoavelmete cheio de moedas a sua frente, começava a assobiar outro tema clássico frenéticamente enquanto pessoas que evidentemente estavam ali para vê-lo se aproximavam. Também podia-se perceber que eram músicos, e alguns podiam ser reconhecidos como bem sucedidos entre a classe. Era Footprints, um tema magistral de Wayne Shorter. Todos começavam a depositar moedas na cuia, incluindo o velho jazzeiro que o levara até ali. Ele também fez o mesmo, apesar de não entender porque. O som estava afinado sim, mas era um assobio. Qualquer um poderia fazer aquilo.
 Foi quando da pastelaria na qual o velho estava encostado à porta saiu um senhor de avental engordurado e com um chapeuzinho branco na cabeça, que certamente ninguém mais usa, hoje em dia em nenhuma pastelaria do rio. O público ao vê-lo começou a gritar como se estivesse entrando um leão na arena. Todos muito exitados , como se o  homem estivesse trazendo a cereja daquele bolo todo.
 O senhor saiu com duas ou três varas de cana de açúcar descascadas, e colocou aos pés do velho, que imediatamente começou a morder e chupar a cana, babando e cuspindo bagaço, mas sem interromper a música por nem por um segundo completo! Sugava, engolia e cuspia o bagaço, ao mesmo tempo que como outro lado da bochecha fazia o assobio quase ininterrupto, mantido pela bochecha inflada , de modo que até hoje o rapaz tenta imaginar (e apenas quando está só, repetir) como era feito. Com tal façanha, o maior artista do mundo conseguia manter as pausas e prolongamentos de nota. os tons e a afinação. E ainda enchia a barriga de garapa e o chapéu de moedas.
 Todos ficavam loucos, e o chapéu ia se enchendo até a boca! E quando acabava o tema, limpava a barba, retirava um puco das moedas (pra caber mais), e começava outro clássico.
 O velho jazzeiro e o jovem ainda ficaram lá um tempo vendo outros sons e rindo de tudo que acontecia. E ele entendeu o que o velho amigo lhe dizia. Arte é sobre expressar beleza e controle de técnica o máximo possível, mas não deixar que a produção de ruídos e defeitos que o instrumento possa fazer, te faça desistir de expressar a música de um jeito que ninguém mais poderia.
 O que aquele velho assobiador fazia era único. Ninguém jamais conseguiu repetir. Acabou virando um sinônimo da impossibilidade de realizar duas tarefas de sentido contrário ao mesmo tempo. Da necessidade da escolha e da consequente perda. Ninguém contava com aquela maldita bochecha do velho...
 E mais, aprendeu que cada artista músico é como aquele velho assobiador. Tem uma vida única. Se expressa (se não estiver imitando ninguém) de uma maneira única. Os problemas da vida são as canas de cada um. O sentimento único e totalmente original, que apenas cada história de vida pode emitir em música. Que mais ninguém, além daquele indivíduo, pode fazer.
 E que ainda que o som que cada músico não seja tão espetacular de se assistir, e nem tenha um público tão seleto e conhecedor do assunto, como o velho do assobio, todo músico merece continuar tocando, se não quiser desistir. E merece colocar seu chapéu no chão, se quiser, também.

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