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domingo, 29 de janeiro de 2012

A Baleia Marrom.

mergulho da cabeça da Baleia Marron
http://www.youtube.com/watch?v=UmXJE9cl6II         
  Era um dia perfeito, muito sol e uma novidade irresistível. Uma mãe que admitia seu filho de treze anos ir a praia sozinho(finalmente...). A escolhida foi Piratininga, que era minha preferida. Primeiro a praia grande pra pegar uns jacarés. Muito mundofeliz, todo mundo muito feliz!!! Moradores de São Gonçalo, desapercebidos em um lugar "mais evoluído" que era aquele. Após estarmos todos já satisfeitos de enfrentar o poder do mar sobre nossas cabeças. Rumamos para a prainha. Tava calmo, batendo ondas, mas ainda era possível nadar ao lado da Pedra da Baleia, que era gigantesca, parecia um prédio de muitos andares , só que deitado. Parecia uma grande baleia cachalote marrom., encalhada na praia. Subimos na pedra maior (que nunca aprendi o nome) e ficamos olhando as pessoas que subiam na baleia. Alguns pulavam de lá , ninguém da nossa idade...
  O grupo era o Pantera, que era o maior, o Pierre , meu melhor amigo na época , o Zé Pequeno, que era o mais velho mas também o mais baixo de nós e eu. Acho que foi o Zé que deu a má idéia, acolhida imediatamente por todos: "Vamos pular da testa da baleia!!!" "SIM!!!" Só tinha maluco...
Atravessamos o canal entre as duas pedras e subimos. Só a subida já era uma merda. Deixava claro que não dava pra voltar pela escada e que cair dali era cair nas pedras do próprio caminho. E ia ficando alto e alto.De cima da pedra parecia muito mais alto que olhando de baixo.
 Chegamos ao platô. Como tudo ali era lindo!!! Bastante superfície pra andar pra todos os lados. Pessoas namorando, fumando , rindo e olhando da beirada também. Aos poucos, alguns entravam na fila e iam andando para a testa da baleia . Estranhamente,  quando chegamos até lá, percebemos que todos já haviam decido. Só havíamos ficado nós quatro lá em cima. E adivinha? Ninguém queria pular primeiro. Hora do velho zero ou um. O Pantera foi primeiro. Tiramos de novo. Agora foi a vez do Zé Pequeno. Par ou ímpar ? ganhei. Você vai primeiro, Pierre. Mas o Pierre medrou: "-Vou pular pelo lado da pedra"(que era mais baixo). Nem zoei, fiquei sozinho lá em cima. Dei dois passos pra trás e três pra frente, um já no vácuo.
    Sacudi os braços como que voasse, brincando. Olhei ao redor e algo estava muito estranho. Podia ver as duas praias e as pessoas como se fossem formigas lá embaixo. De alguma forma estava muito acima da altura de que havia pulado. Parecia descendo das nuvens, olhei então pra baixo e vi o oceano subindo. Era linda aquela cor de abismo azul escuro esverdeado. Mas tinha um ponto preto no meio, que se aproximava como a pupila de um olho que se abre roubando a cor, como crescendo em psicodelia. Aterrizei de peito sobre a pupila. Um pouso forçado e doído , sobre a cabeça do Zé Pequeno, que havia ficado boiando lá embaixo , no ponto de aterrizagem todo tempo... Mané.
   Nadamos eu e o Zé para fora d'agua, sinceramente não me lembro direito de como cheguei até a areia. O Zé nada sofreu. Fiquei ali sentado com uma dor terrível no peito (na aterrizagem eu bati a bunda nas costas dele, de segunda, e o peito na cabeça em cheio, primeiro). Arrotei pra sentir o ar, como um recém nascido, mas não chorei, apenas reclamei. O Zé nada sofreu (maldito cabeça dura), aenas afundou e voltou, mas eu estava um caco. Fui pra casa sozinho.
   Ia caindo dentro do ônibus e as pessoas me olhavam como um moribundo de treze anos. Tenho tanta pena deles hoje como eles de mim, devia ser uma cena triste. Alguém me deu o lugar .Percebei que se eu colocava os ombros pra frente, todo meu peito parecia que ia afundar e perdia a respiração com uma dor aguda. Tive que corrigir rápido a postura. E não podia contar pra minha mãe . Ela me levaria ao médico sim , mas nunca mais me deixaria ir a praia sozinho. Por meses, procurei não sentir aquela dor no peito e fazer pose de robocop, pra não morrer asfixiado e indo a escola normalmente, ou parando naquela velha esquina do Raul Veiga. Em casa,  Calei-me.
 Quinze anos depois,  entro eu  no consultório do doutor com chapa pedida na mão.
 Ele olha , coça a cabeça(um gesto que já vi algumas vezes e que não é muito agradável de se ver num médico.
 -Rapaz o que aconteceu aqui?- diz ele olhando pra foto. -Você já se machucou aqui ?
-Sim- disse , e contei a história da baleia marron.
 - Vocêo podia ter morrido!!! Quebrou o externo quase no meio e várias costelas ao redor, nem sei como isso calcificou. Quer dizer, o que calcificou, pois uma parte do seu tórax simplesmente vai sempre estar flutuando, com costelas apenas encostadas umas nas outras e no externo, entre estes calos, que são cicatrizes ósseas. Tem muita sorte e estar vivo!!!
 -É verdade!!! Meu peito estala!!! E tenho sorte!!! AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!
 Deve ser por causa disso que meu coração é confortável...

2 comentários:

  1. Esse post também pode ser chamado de trepanação torácica semi-voluntária ou , adoro ser eu mas não desejo isso pra ninguém, ou ainda sou igual a todo mundo mas diferente também...
    AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!

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  2. essa históri é real e auto biográfica. não é segredo.

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