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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A vingança é doce e fria.

Ele se arrastava pela cozinha.
 Sujo e com uma camiseta do tipo regata, que um dia já fora branca, mas agora tinha cor de algo parecido com um coador de café usado, com manchas de cores escuras e outras desbotadas. Já tinha, a tal peça de roupa, aqueles esgarçados de tecido nas pontas laterais das bainhas, denotando uso para limpar o nariz, as orelhas, ou mesmo os vãos dos dedos dos pés, quando chegava em casa de comprar os pães. Ainda suado, e retirando a roupa de sair, um pouco menos suja, e vestindo novamente a estranha noção de conforto que tinha,  percebia que o pé havia ficado pegado de poeira, onde as tiras da sandália escorregavam, ali as bainhas da camiseta se encaixavam, encurvando-se, o ser, sobre as próprias pernas e se abaixando, deixando aparecer as costas peludas.
 Vestia também uma cueca tipo sunga, de elásticos frouxos, que não descreverei a pormenores apenas por que não quero que abandonem a história antes do fim.
 O banho nem sempre era possível, por conta do racionamento, normalmente causado pelas obras do sistema Imunana-Laranjal, que sempre tinha dificuldade de suprir o abastecimento de sua região. (Mas estranhamente , para os ricos  nunca faltava água nas piscinas. ) E então  se banhava quase sempre quando havia água e coincidisse com seu horário flutuante de trabalho, que era como chamava o ofício de vender revistas e livros velhos e mal conservados, nas calçadas do outro lado da poça. Exceto quando não tinha dinheiro para duas passagens, pois aí ficava por Niterói mesmo. Não gostava mesmo de banho. Dizia gastar luz, água, sabão, e pele. E que já que não se movia muito, não necessitava disso todo dia, nem toda semana.
 Sua quitinete, sem que percebesse , se tornara em um reflexo dos seus hábitos de higiene. Tinha roupas por todo lado penduradas. Todas sujas, ou parecendo sujas, ou cheirando com se estivessem sujas. E aquelas que deveriam estar perto , mas não se viam, apenas se sentia o cheiro de roupa suja por ali. Costumava escondê-las muito no sofá, embaixo das almofadas, por causa da pressa, caso chegasse alguém. O que era raro, pois seus amigos costumava ir lá apenas uma vez. Depois pegavam nojo, e com certa razão. Alegavam legítima defesa da própria saúde e olfato.
 Todas as vasilhas que jaziam abandonadas na pia e em todas parte, continham restos mais recentes ou mais embolorados de comida. E comida é algo que nosso amigo gostava muito. Sempre muito molho. Sempre muito açúcar.
 Açúcar, molho, desleixo, e algo entre má sorte e tendência ao desastre, faziam que sempre um respingo, ou muitos grãos do que quer que fosse, ficasse sempre no sofá, no chão, na mesinha e na pia da cozinha. E é claro, principalmente ao redor do refrigerador e no fogão, este era o que mais lembrava uma figura dantesca.
 Pagava o aluguel para um, mas morava com um batalhão, o qual não sabia onde era o quartel general, as baratas cascudas, e seu ninho imortal e oculto.
 Não tinha mais sossego. De noite ou de dia, era surpreendido pela companhia repugnante, mesmo para ele, da população de francesinhas e também de suas irmãs maiores, as voadoras peludas. Um verdadeiro terror.
 Decidiu voltar a viver sozinho. E para isso comprou latas e mais latas de inseticida em aerosol. Não era muito eficiente, pois matava apenas se o produto fosse borrifado diretamente sobre o inseto.
 Já experimentara fechar a casa toda fechada e com latas inteiras em jatos de spray, e com máscara de gás e tudo mais! E depois corria para  fora, para não morrer junto com o inimigo. E Esperava horas do lado de fora. De roupão, calça de pijama, e a velha camiseta cor-de-coador de café usado, com a máscara de gás na cabeça. Ele tinha cabelos meio desgrenhados e uma calva que subia pela lateral, raleando os cabelos, escapando pelo alto das tiras da máscara de gás. Digno de um filme de zoombie. Fumando um cigarro. Como se fosse um veneno certo pra cada um.
 Mas de nada adiantou. Quando entrou no apê, viu muitos cadáveres espalhados por todo o chão. Mas, saindo de um dos espelhos das tomadas da casa, solto, de lado, logo acima da pia, uma francesinha saiu e lhe deu a bofetada: Ainda estamos aqui! Resistiremos!
 Era sua estranha contradição. Nosso herói de apartamento desejava se ver livre das baratas, mas não pretendia manter a casa limpa afim de não atraí-las. Simplesmente não ligava uma coisa à outra. Achava que as baratas tinham que respeitar seu direito a sujeira individual.
 Sentado na poltrona suja, olhando um dos cadáveres perto e outra que passeava junto a parede, triste, de repente levantou os olhos e viu uma propaganda salvadora! Um comercial de um super "barata-mega--killer- ultra", que prometia ser o fim dos parasitas de apartamento, "com aplicação única e garantia de sucesso!". Só não voou para o mercadinho porque não era uma barata, como a que ficou olhando para a TV, depois que o morador alfa saiu. Os olhinhos da barata pareciam ver o terror que aquilo causaria aos seus bravos ocupantes clandestinos.
 Ao chegar em casa já estava meio escuro, e como havia lâmpadas queimadas há muito tempo, não dava pra enxergar direito. Mas estava decidido a cumprir  sua missão antes de dormir. "Nem mais uma noite sendo surpreendido por elas!" -pensava.
 Tirou a calça de ir na rua,  vestiu apenas a camiseta-café-velho e ficou de sunga mesmo, já ia dormir depois. Sem banho , é claro. "Nem tem água..." -dizia, fazendo um muxoxo.
 Com algumas bisnaguinhas de um veneno pegajoso, que parecia com doce de leite, ao sair da ponta do aplicador,  ele se arrastava pelos cantos da cozinha.
 Colocando pra esquentar um café velho, numa leiteira suja, olhou para baixo da mesa e reconheceu um dos maldito inimigos de sua paz. Uma barata grande e cascuda, com antenas esplêndidas, asas transparentes mas grossas, e os pés peludos e sujos, saindo pelos lados do corpo em seis direções.
 Tacou-lhe o chinelo de tiras em cima. Claro que não morreu. Um monstro daqueles só poderia ser morto com o barata-mega-killer-ultra!!!
 Se abaixou com a bisnaguinha na mão e derramou uma quantidade absurda, fazendo uma espiral assassina do creminho marrom nas costas da pobre anciã, que imediatamente ficou imóvel, apenas tremilicando uma das pernas, acusando que logo logo não mais se moveria.
 Nosso anfitrião ficou satisfeito. Já havia matado baratas de modos violentos e até cruéis, para descontar a raiva. Mas era a primeira vez que sentia alívio com isso.
 Pegou o café requentado e serviu numa caneca , que tinha uma trilha de açúcar seco que subia do fundo, por ter ficado dias tombada de lado na pia. A água sozinha não tira isso, precisaria esfregar. O rapaz nunca usava a bucha com detergente, se não fosse uma ocasião muito especial, ou seja, aquelas  improváveis visitas. Pegou do jeito que tava , jogou o café dentro, e foi andando pra frente da TV.
 Só assistia programas com muita violência ou com muito sexo, e, quando começava, não tirava mais os olhos da tela. Assim distraído, não viu que a barata cascuda voltara a se mover, contornando a parede por trás dele e subindo na poltrona pela parte de trás do braço onde estava a caneca.
 Lenta e cambaleante, a heroína das Blattarias, escalou o sofá e se encaminhou para a caneca. Talvez pelo cheiro do café doce e morno, talvez pelo desejo suicida de vingança, ou ainda pelo senso de dever para com o planeta e as duas raças em questão; Blattaria e Homo Sapiens, que pelo ser asqueroso e cruel eram ofendidas.  Estranhamente não abriu as asas nem sacudiu o veneno, mas aproveitando-se de que o nosso sujo amigo se abaixou para pegar o controle remoto, e limpar os dedos do pé com a camiseta, se jogou para dentro da caneca, com o veneno dando voltas em suas costas, e afundou.
 Ele mudou o canal para um filme pornô, pegou a caneca e mexeu o café, com tudo dentro. Mas em aparecendo uma daquelas mulheres estufadas pelos modernos avanços da cirurgia plástica, colocou a caneca de novo sobre o braço do sofá, sem ao menos olhar para dentro dela.
 E foi aí, que nossa heroína conseguiu, escalando pelo açúcar cristalizado, escapar da caneca para o chão ensebado. "Que dia maravilhoso!"
 Sem perceber, ele virou um grande gole do café, já quase frio. Pousou  caneca e achou o café horrível, mas estava mais interessado em concluir o ritual que sempre vinha após o pornô.
 Quando ia colocar as mãos na cueca suja, que pouco se avolumava pela excitação, sentiu o formigar da boca, seguido pelo queimar da garganta., e ao tentar se levantar, percebeu que não conseguia respirar.
 Agonizou, sentindo dor e falta de ar. Ânsia de vômito e dores intestinais. Vomitando e enchendo as cuecas.
 Caiu na frente da TV, na hora da tomada final da cena do filme. A mulher lambuzada na tela, ele no chão. A caneca junto. O café frio ao chão.
  Na medida em que a poça de café se espalhava e chegava ao aparato bucal da já quasse imóvel barata vingadora, toda cena, do apartamento sujo ao cadáver de seu inquilino, era refletida na poça de vômito de café, no fundo de açúcar cristalizado da caneca suja, e no pequeno e estático olho da sobrevivente. Que sorvendo o líquido viscoso parecia sorrir  e pensar, em seu momento final:
 "A vingança é mesmo doce e tomada fria."

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