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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Lúnia, a mulher gorila.

Em 1989, eu estava passeando por uma festa julina ,em São Gonçalo, no bairro do Jardim Alcãntara, que era perto da minha casa uns dois quilômetros, mas como era um bairro onde tinha amigos e as meninas eram muito bonitas, lá estava eu três vezes por semana.
Festa julina, era porque em São Gonçalo, minha cidade natal e onde morei , infelizmente, por pouco tempo, todo mundo adora  festas de inverno. E festas com temáticas católicas e comidas típicas até setembro, se a quadrilha não ficar pronta no feriado, ou se a grana da rua não der . O importante é as crianças ficarem felizes e terem sua quadrilha pra tirar foto e paquerar inocentemente. E a quadrilha psicodélica , que é para os um pouco maiores seja divertida. Eu mesmo dançava nesta, depois que fiz quinze anos.
A festa julina do Jardim Alcântara , naquele ano estava chique. Havia um mini parque de diversões com carrosséis e também auto-pista, ou carrinho bate-bate, que é como chamávamos os mini automóveis movido a energia elétrica no chão e no teto.
 E entre outras atrações, tinha Lúnia, a mulher gorila, com aquelas pinturas que tentam ser realistas, mas ficam entre o surrealismo, expressionismo e a psicodelia dos quadros de Arnaldo Batista, do lado de fora, com o  nome e o bordão em letras derretentes e garrafais.  Tão impressionante era o chamado do locutor no momento que olhei para o nome na entrada, que comprei o ingresso e entrei no impulso. Na escuridão do local onde a platéia ficava em pé e espremida, eu ouvia ainda o chamado meio gritado, mas num ritmo pulsante:
-Lúnia! Lúnia! A mulher gorila! Venham, senhoras e senhores ver a Oitava maravilha da Terra! Vinda das selvas africanas para seu terror e espanto!
Lembrava que a imagem da mulher na placa era branca, ao lado da imagem desenhada, mal, muito mal, mas com muito capricho nos tons de cinza e preto, da gorila em que ela se transformaria. Penso hoje em dia em todas as questões raciais e do porque raios a mulher africana daquele espetáculo não era negra, como meu avô, minha tia avó, meu pai e meus tios, todos descendentes diretos do habitantes do continente africano. Aliás como é toda a raça humana, a priore. Mas naquela idade , eu não questionava nada. Apenas estava curioso com como uma mulher poderia se transformar em gorila, fosse ela de que continente fosse , ou de que etnia.
 Eu já era uma figura estranha, meio grunge, mas me julgando alternativo. O que em terras de pagodes e funks não é lá muito atraente. Então as pessoa não olhavam muito pra mim, apesar do cabelo crescendo em formato de pinheiro, repartido de lado. Com meu casaco de flanela, calças jeans e tênis rainha , imitação de redley de duas cores, que era moda, e eu até achava legal, mas eu achava caro, comprava o igual, de marca melhor e mais barato, por não ser moda , na época. Mas ainda assim , olhavam o fato de eu não estar propriamente de redley, uma estranha ofensa pessoal. Estava invisível na penumbra.
 De repente as luzes se acenderam, mas só dentro de uma jaula , de onde surgiu a mulher branca e sorridente, vestida de véus. Separada de nós por poucos passos e finalmente as grades. E o locutor começou novamente.
- Senhoras e senhores , boa noite! Essa bela mulher exótica que vocês vêem a sua frente não está em uma jaula sem motivo. Ela  é Lúnia, uma princesa africana que tem a incrível habilidade de se transformar em gorila! Foi encontrada nas selvas por seus pais, e depois de descoberta por cientistas foi levada a Europa, de onde adaptando sua vida e sua estranha condição, agora nos acompanha em nosso parque de diversões.
 Lúnia sorria. Estava de biquini, mas aqueles biquinis grandes, com lantejoulas e brilhos. Em sua cabeça havia um fino arranjo com plumas, em um penteado cheio de ondas e que ninguém olhava, pois ficavam presos , como eu mesmo estava, à beleza e ao encanto da mulher que levemente acenava com a mão esquerda.
-Lúnia- continuou- não tem completo controle sobre sua mutação, necessitando viver trancada em seu trailler, que fica atrás desse palco. Vivendo da renda dessas pequenas apresentações, já que não pode trabalhar livre na sociedade, por motivos que serão verificados pelos senhores espectadores.
 -A música tem uma estranha influência sobre ela, causando alterações de humor , e finalmente , ao se usar as notas certas , tem-se a transformação final. Peço aos senhores que não se aproximem demais da jaula neste momento.
 E ao acabar de dizer isso, surgiu no canto oposto ao da jaula um homem bem vestido e portando um estranho instrumento de sopro. Ao chegar, Lúnia já o olhou com um olhar estranho de medo e submissão, e estremeceu de leve ao abaixar os olhos para o instrumento em suas mãos. Ao levá-lo a boca , na penumbra, não era possível sequer ver do que era feito , ou como era tocado, aquilo que soava entre uma flauta e um gemido, e que poderia até mesmo seu um ruído feito pela voz daquele homem, ou todas essas coisas juntas. Já nas primeiras notas ela se contorceu estranhamente, como se dançasse, mas não por vontade, mas para fugir da música que a dilacerava e mudava por dentro. Aumentando em ritmo e volume, a flauta prosseguia, até que ela começou a se agitar como uma fera, e se despir do véus sobre as pernas, levando os homens a assobiar. Começou a desarrumar o cabelo, que antes ostentava tão bem penteado, e que logo desapareceria sob a pele  da gorila, enquanto a luz diminuía, e ela gritava na  jaula. O músico fez um floreio com a flauta enquanto o locutor dizia:
-Reparem nos dentes que crescem!- chamando nosso olhar a se desviar do corpo feminino, para observar a mulher mostrando uma arcada dentaria disforme e com caninos crescendo.- E os pêlos nas suas costas antes angelicais! A luz fraca e as sobras do homem tocando, tornavam o truque realmente impressionante.
 Os homens , que antes estavam assobiando e dizendo obscenidades, agora estavam calados e com olhos arregalados, e soltavam pequenos gritos junto com os gritos da mulheres, quanto mais a gorila tomasse o lugar na imagem dentro da jaula.
 Agora a música estava calma, a a gorila estava totalmente transformada e respirava pesadamente, arremessando um urro que vinha da jaula, e dançando lentamente.
-Reparem senhores e senhoras, que quando a música fica calma, a gorila também fica, e se o seu amado músico continuar tocando assim, ela irá dormir e amanhã acordará novamente uma mulher!
 Mas mal ele dizia isso , e entrou um rapaz com um rádio de pilha por trás da platéia, tocando alto "Como vovó já dizia", do Raul Seixas , bem na hora do solo da flauta da serpente!
  A música irritou a gorila que começou a bater na jaula! O locutor gritava. O músico amado parou de tocar e foi segurar a grade da jaula, sendo arremessado contra a parede oposta do recinto, de onde viera.
-A grade se soltou!- Alguém gritou .
-Calma, Lúnia! Calma Lúnia! - gritava o locutor, enquanto a gorila pulava por cima da grade caída em direção a platéia! Que começou a correr com gado para a porta e na direção do cara com rádio, e com o Raulzito ainda tocando alto! A gorila gritando berrava que nem um homem, e o povo se atropelava.
 Eu estava na extremidade do canto dentro, do lado oposto da porta de saída , agora apinhada, então enquanto a multidão de uns cinquenta, que tinha ali passava pelo funil, estranhamente saí do pânico, dei um passo na direção que estava, ao invés de ir com a turba, sentei no canto, e  via aquilo se desfazendo na entrada, aos sons dos gritos da platéia, do locutor , do cara do rádio, e até do músico amante, que levantou e correu junto com a gorila.
 Quando todos saíram, ficaram só os três e eu no cantinho quieto , o locutor não aparecia. Eles riam e faziam uma dancinha de mundofeliz!
-Beleza- disse o cara do rádio, desligando o Rauzito.-Tava lotado! Lavamos a égua!
 A gorila tirou a máscara e era outro cara, barbudo, mas nem mulher nem gorila.  Se abraçou também festejando com o músico, quando finalmente olharam para o canto que eu estava.
-Ô rapá! Tu não correu não? ahahahahahahahahahahaha! Corre pirralho! E saiu correndo pro meu lado com os outros dois.
Passei por eles correndo, pois o cara com roupa de gorila me deu medo. Tava com um cheiro forte de cachaça. Imagino que não deve ser fácil ser a mulher gorila do parque.
Corri, passei por eles, abaixei e peguei o rádio no chão. Ainda correndo , liguei o Rauzito de novo. Agora já rindo, mais alto que eles pelo dinheiro. Xingando, e mostrando o dedo médio, enquanto descia a rua central do Jardim Alcântara.
-"Quem não tem colírio , usa óculos escuros... Hare Krishnaaa Hare Krishnaaaa..."
E foi minha primeira fita do Raul. Uma coletânea, daquelas bem piratinhas e com as músicas cortadas com fade out, pra economizar e enganar os fãs do cassete. Ainda bem que foi barata. Custou uma olhada para  Lúnia, por poucos cruzados, e imensos segredos. E veio com um rádio de brinde.

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