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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O FLASH BACK DO COGU

Era fora de estação. Cidade vazia. Eu continuava fazendo tudo de errado. Três dias cheirando quinze gramas de cocaína cozida no forno, só no suco de laranja. Dançando com facas. A BAD DAS BADS.  Assustando até que sabia que eu era pacífico.
 E não era um pico. Era um planalto. Pois eu havia tomado um chá com 150 cogumelos 4 dias antes, quando comprei batas nigerianas. Meu cabelo estava redondo como uma árvore depois que eu deixei a Marinha. Acordei e pedi um misto quente e mais um suco. Comi como se tivesse saído de um deserto. A fogueira apagada ainda tinha as cinzas. Lembrei que tinha uma fatia inteira de cannabis prensada na cama, umas cinquenta gramas. Corri até lá e peguei um bom pedaço, fiz o beck e voltei fumando, mas esqueci o isqueiro no quarto.
 Quando cheguei nas cinzas de novo, tava tocando Live, Pain lives on the river side. E eu comecei a rodar com o cigarro na mão, fazendo um tufão de fumaça verde, e de olhos fechados. Por um segundo abri os olhos pra fumar a ponta, enquanto minha cabeça rodava, vi três pessoas descendo rumo ao rio. eram três hippies: Um ruiva, um branco de cabelos perto dos ombros e calças de couro, e o outro era um negro de chapéu. Pareciam Janis , Jim e Jimi. A ponta estava apagada, então corri até o rio pra pedir fogo aos hippies, eu também me achava hippie, mas acho que ainda não sabia o quanto...
 Quando cheguei na beira do rio não tinha ninguém. Zero. Nada e a natureza. Subi de volta confuso e com a ponta na mão. Essa porra é o flash back do cogu, pensei.
 Parei então no fogão a lenha que era na porta do quartinho de um amigo. O fogo estava há muito apagado, então me sentei na beirada e com um fósforo, que havia ali mesmo, acendi a ponta e fiquei pensando no que teria sido aquilo.
 Tinha uma porta de um lado, e outra do outro do fogão. O caminho que descia pro Poço do Hipopótamo ficava na frente. Mas isso faz muitos anos. Mais de vinte.
E então apareceu outro hippie. Igualzinho o John Lennon, mas com um chapéu africano na cabeça, que nem o do Jimmy Cliff! Eu me sentia em outra dimensão, num mundo paralelo. Parecia tudo distorcido mas eu estava bem, e sem saber o que fazer nem dizer nada, ofereci a ponta pra ele com um gesto. Ele pegou, deu um belo tapa. Fez aquela cara de quem gostou do beck e me devolveu. Eu fiz um "joinha", todo orgulhoso,  pra ele, e ele fez um sinal de paz com a mão aberta, e aí saiu pela outra porta.
 Eu fiquei pensando "Que cara legal né? deveria ter perguntado o nome dele..." e então sai correndo pela porta pra isso, mas o cara sumiu. Sumiu. Não dava tempo dele ter chegado até o portão, mas mesmo assim foi até lá. Nada. Desci a rua e fui até a praça, perguntando se alguém tinha visto aqueles hippies por lá.
 "Zé, é fora de estação... Não tem ninguém na cidade. só você. Você deve ter visto os espíritos dos hippies." - Era o que me diziam...
 Voltei confuso pro camping, duvidando de mim mesmo.
Até hoje eu sou encucado com aqueles hippies. E aprendi também a ir mais devagar com as comidas preferidas. Até larguei o pó e passei a ser extremamente esporádico com cogu... Redução de danos, manolo.
 O silêncio daquela viagem me ensinou muito. Mas a música, pra mim , foi o gatilho.

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