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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

dEU NA PRÓPRIA CABEÇA

"Vamos lá, Zé do Fino, nos ajude a destruir a casa do D. Luiz Rasta."
"Mas porque, Makandal, se a casa é tão boa de dormir?"
"Porque eu quero reformar, pra ficar melhor do que está."
Não entendi, mas a casa era dele. Todo lugar era dele. Eu só estava ali pela primeira vez, e já havia ganho estadia de graça, então fomos lá.
Expliquei quando estavam jogando as telhas:
"Olha minhas mãos são atrofiadas assim. Se você jogar as telhas e elas estiverem pra baixo , vão cair. Mas se estiverem para cima, eu seguro, pois consigo movimentos de supinação , mas não de pronação, por causa das atrofias."
Já sabem que alguma telha logo caiu no chão , né? Então achou-se melhor que eu não pegasse as telhas no desmonte, mas que ajudasse derrubando tudo com a sexta-feira, já que o pau-a-pique não aguentaria os braços de um fuzileiro de férias e recém formado. Começamos a demolir.
 Mas aí a sexta-feira resolveu mostrar porque tinha um cabo tão grande.
 Eu bati a primeira vez e derrubei meia parede, todo mundo se animou, mas eu tinha escrito uma frase na parede seguinte, com um desenho da minha mão contornada, escrito:
"Mãos no trabalho são uma prece muda"
Uma frase de Amália Franco , que  havia aprendido num centro espírita kardecista. E fiquei com pena de derrubar. Então dei a volta e fui bater pelo outro lado. Quando desci o braço pra bater a primeira, a mão mais fraca, que é a que tinha sido contornada, tremeu. O cabo da sexta-feira agarrou-se no pau do pau-a-pique, e a sexta-feira voltou com toda essa força na cabeç a do Zé do Fino. Pow!
O Zé do Fino agora parecia um foguete, correu no tanque e deixou correr a água do Rio do Sana, gelada, de manhã antes do sol bater daquele lado da pirâmide. A água gelada deve ter ajudado, mas o que os outros que viram o corte acharam é que estava feio. Foi o que o Cream e o Caroço disseram:
"Tá feio."
O Makandal disse pra levar ele correndo atrás da igreja que a Raquel poderia dar alguma erva pra ele. Eles foram. Chegou lá o Zé do Fino abaixou a cabeça e mostrou o buraco, o Cream e o Caroço ficaram do lado de fora. A Raquel que era uma senhora bonita de cabelos grisalhos, bem hippie mesmo, e também disse que tava feio, mas que tava tudo beleza, tudo legal. Pegou arnica e talvez saião, e macerando  colocou com um pano branco na cabeça do Zé do Fino. E ele se foi com o Caroço e o Cream, de volta pra Jamaica. Quando o Makandal viu ele chegar de turbante verde deu risada pra caramba, e o incrível é que o Zé do Fino também. AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!
"A Raquel gostou de você." Foi o que ele disse. Isso também deve ter ajudado.
Por dois ou três dias o Zé do fino ficou andando equilibrando um turbante de ervas, meio verde, meio vermelho, na cabeça. Enquanto fumava trombeta com maconha, pois o "Zé era muito louco." É o que dizem.
 Quando passava na frente da Dona Hilda, ela ria. Um feito! Isso também deve ter ajudado.
O padre só sabia que ele não se benzia quando passava pela igreja. E isso certamente ajudou.
Algumas pessoas diziam que ele disputou com o gaiteiro por uma ponta, à meia noite no Pontilhão, com um saxofone alto que só sabia tocar uma música do Bob Marley.
Que não quis a mina do Cream, e amava mesmo o Caroço, como irmão.
Que devolveu a trombeta de anjo roubada pra floresta , à mando e com bronca do Jamil, O que lhe agradece até hoje.
Que viu Janis Joplin, Jim Morrisson , Jimy Hendrix e até John Lennon, só de back e no flash do cogu e do Benzitrat com Vodka Smirnoff Silver 15 anos, que bebeu com uma galera muito louca por lá, que até Daime com um rapáz que abandonou a igreja ele tomou, assistindo The Wall, e chorou...
E que depois que foi embora, sua mãe apareceu pra procurá-lo.
Que quando ela confirmou que ele era fuzileiro, todos ficaram brancos. Mas que daí ele já tinha ido com o Caroço e outra Raquel de cabelos vermelhos pra Macaé.
Dizem que no começo ninguém acredita nas histórias Zé do Fino.
E que ele entrou pra história do Sana como o cara que não pegava ninguém e que deu na própria cabeça e se quebrou, na sexta feira, lá na Jamaica.
Dizem que depois virou Don Astronauta. Que vendia bonequinhas e trocava risadas e tocava saxofone soprano bem pra burro, mas essa é outra história...

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