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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Isso não se diz assim, aqui!

Eu queria ter sotaque.
Sim , queria muito.
Eu me lembro de quando tinha.
Era confortável. Demorava pra que chegasse no problema de ser ou não ser humano.
Dava tempo de aprender algo e de socializar com os que eram de casa.
Já reparou que o sotaque de casa é igualzinho?
As pessoas falam todas igualzinho quando vivem juntas.
É até bonito escutar, assim sem prestar atenção, sem saber quem é quem, nem o que estão dizendo.
-Menenené?... Mené? meneéé menené... Menenene! -Sem entender nada sabe, só ouvindo aquela musiquinha de família comendo e fofocando a vida sem maldade.
Que saudade.
Como agora ao longe , em  uma mesa de restaurante, ou comendo em um parque ou shoping.
Houve um tempo em que eu falava como meus irmãos.
E meus irmãos falavam diferentemente da maneira que falam hoje.
E nós todos falávamos da mesma maneira, menos minha mãe, que era de outro estado.
Hoje já penso que ninguém tem sotaque depois de certa idade.
Tem é personagem, e personagem até o sotaque é falso.
 Para mim, nem tem.
Detesto sotaque falso.
Amo sotaque verdadeiro e a maneira como as pessoas que amam seu sotaque dizem:
-Isso não se diz assim, aqui!
E de como falam todas as mesmas coisas.
De como falam todas iguais.
De como falam o nós entre eles.
Mas não eu.
Eu viajei demais.
 Ainda que sempre ache que foi pouco,
E sempre saiba de quem viajou menos e mais que eu.
Quem viveu na estrada e quem morreu na primeira viajem.
Eu viajei mais que todos, pois perdi o sotaque.
Dizem que isso até é viajar errado.
E que é por isso que as vezes eu preciso viajar para o passado até chorar, ou quase.
Pra ouvir de novo minha voz com sotaque.
Pra voltar a falar e ouvir o nós falado junto.
Mas agora só ouço o tempo todo:
-Isso  não se diz assim , aqui!
(e são todos estranhamente como minha mãe, não importando o sotaque que tenham.)

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