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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Continue olhando (ou O Homem Alto, ou As Memórias de Um Homem de Lugar Nenhum)

  Em minha adolescência considerava Pierre, meu melhor amigo. A gente fazia uma dupla de Juba e Lula, personagens de seriado adolescente de TV da época. Saíamos pra arrumar namoradas e beber. E mais pra frente com roipinol, que era uma maneira de pirar trash, pra adolescente.  Mas era o que tinha. Não tinha ainda experimentado a plantinha.
O Pierre era de Umbanda, e eu era o revoltado evangélico, que ia na igreja obrigado no domingo.
 Um dia ele até me deu um recado do zé pelintra: que eu saísse da esquina ou da igreja, que era pra escolher.
 Eu não conhecia outras crenças , senão bíblia e contos de terror urbano-rurais, de São Gonçalo, RJ, onde nasci, e de Pindamonhangaba, SP onde fui criado. O Pierre me contava histórias da Umbanda e tabém da roça de São Gonçalo. E eu achava muito legal, mas tinha que ir na igreja evangélica senão apanhava. E também  gostava de cantar, e do monte de meninas que tinha. da cantina pra comer salgadinho. Não queria largar a igreja.
 A galera da rua era hostil, por eu ter sotaque de paulista, e de caipira ainda. Do interioRRR.
 Na igreja me tratavam como irmão e não me chamavam de paulista.
   Era chato ser gonçalense e ser chamado de paulista. Parecia que eu não era de lugar nenhum, pois lá em Pinda eu era carioca(!), por ter nascido no estado do Rio.
 Mas, lá ou aqui, na igreja não usavam apelidos, e eu gostava, na época, de ser chamado de Junior, como minha família fazia. Me sentia parente de todo mundo, mesmo.
  Um dia estávamos conversando na esquina, depois de umas brejas.
  Eu tinha sido pego pixando com giz de cera, na igreja, e fui expulso, já que não era conhecido de quase ninguém, até que minha mãe fosse lá e explicasse que eu tinha família na região, e que eram de outra denominação mais antiga, de muitos anos, e tudo mais.
 Assim, por não mais ter a igreja pra ir, parecia que o zé pelintra tinha escolhido por mim, já que eu não fazia. Então estava na esquina, que era meu novo lugar. Bebendo cerveja e pinga, fumando cigarro e falando de mulheres e contos de aventuras, à la Juba e Lula (hô) .
  Lá pelas tantas da madruga o Pierre me sai com a história do homem alto. que lá pelas bandas de onde veio sua família, e não me perguntem o lugar, se eu soubesse , teria uma péssima propaganda agora. Não lembro se era, Laranjal, Cachoeiro, ou Manilha. Um desses lugares , longínquos e meio desertos, na época.
 O homem alto era aparentemente um homem normal. Numa noite em que você acordasse de madrugada, logo antes da meia noite, se você olhasse pela portinhola da porta da frente, que era o que existia antes do olho mágico, você veria em frente a sua casa um homem alto e bem vestido, ainda que com certa elegância, com roupas velhas para a época , e de chapéu. Feio, ainda que misterioso, e magnético. Magro, e do tipo que você, caso homem macho, não ficaria olhando, se não fosse o fato de ele estar bem na frente da sua casa, do outro lado da rua te encarando, com os olhos brilhando nas sombras da aba de seu chapéu. Sempre encostado no poste de luz, com os pés na touceira de mato, não era possível ver seus sapatos.
  A lenda conta que alguém ao passar pela portinhola da porta da sala, pensou ter visto uma mulher do outro lado da rua, voltou e olhou de novo, deparando com o homem.
Nesta situação, você pensaria em ir dormir, mas, como sempre faríamos também nós, numa situação dessas, olharia de novo pela portinhola, para ir dormir tranquilo. Mas batata. O homem alto estaria lá, imóvel, olhando pra você. E você já acharia muito estranho se isso tivesse acontecido uma vez só.
  E se caso continuasse olhando, enquanto pensa se vai pegar uma faca , um bacamarte, ou se vai sair pelos fundo pra procurar a policia, teria a leve impressão que ou ele estava mais perto , ou havia crescido um pouco , enquanto você não estava olhando.
 Nesse momento você pararia de olhar , duvidando do que estava pensando que via. Se aproximaria de novo, agora com um olho só e sem abrir a portinhola por completo, e constataria   inequivocavelmente, dessa vez , que os pés do sujeito não haviam se mexido. Ocultos pelo mato, estavam bem á direita do poste de luz, que você achava tão útil ter na frente da tua casa, mas que agora para observar o homem alto, te feria a vista. Deixando claro dessa maneira que ele não tinha se movido do outro lado da rua sem calçada e de terra, para o lado da sua casa.
 Mas também inequivocavelmente, pela altura da casa dos ricos do outro lado da rua, que tinha atrás de um belo muro de cimento, pichado e descascado, mas luxo e coisa rara, em lugares como aquele de cercas de arame farpado, e casas pobres, perceberia aterrorizado,  e saberia que aquilo não era humano como aparentava, e que tinha crescido ainda mais, esticando-se e deformando-se, estando já, em altura, ultrapassando o muro e quase tocando o fio do telefone , que ficava mais abaixo dos fios de tensão elétrica.
 Era agora um pequeno poste humano, ainda olhando fixamente, imóvel, encarando-o.
 Perceberia então, que já que ele crescia enquanto você não olhava, que teria que continuar olhando-o, suportando sua encarada, mesmo percebendo-se cansado, com sono, em pé, meio curvado, encostado na porta, forçando a vista debaixo de um poste de luz.
 Mas não havia jeito. As horas se passariam, e você a  cada momento perceberia, que mesmo o piscar dos olhos com sono, já davam tempo dele crescer um pouco mais e se curvar, cada vez mais para frente, em sua direção. "Continue olhando, continue olhando...", pensaria incessantemente.
 Já quase na alva, despertando de uma cochilada encostado com a cara na porta, você perceberia, com um grito, que havia dormido e agora sua face estava já muito perto da porta. Disforme. Esticada, e com aqueles olhos brilhantes, quase alcançando sua portinhola, se esticando como uma serpente.
 E neste momento, vindo da direção das suas costas, do fundo do quintal, o galo cantaria, COCOROCÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ!!! Fazendo-o pular pra trás, gritando novamente!!! AAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!
 E voltaria capengando rapidamente para a porta, para ver finalmente que a criatura assustadora simplesmente sumira. Desaparecera sem deixar rastros. Nem mesmo um amassado no capim do poste, agora sob os primeiros raios do sol. Nada.
  Pierre me disse que isso teria acontecido com um primo distante, que ao contar a história a mãe , ficara sabendo que se ele tivesse saído pra tirar satisfação com o homem alto, o homem alto tiraria seu chapéu e mostraria chifres, se moveria da touceira de mato na sua direção, revelando os pés de bode, no lugar dos sapatos. Que ele era da banda do inferno, e te convidando deseducadamente, te levaria para lá com ele. Para que você se tornasse um homem alto, também.
 Sua mãe pediu pra ele pra rezá-lo, pra não acontecer mais.
 Ele se ajoelhou e recebeu a reza com arruda, pra fechar o corpo pro mau.
 A mãe era benzedeira e Pierre disse que era das boas. Que o curou quando teve uma espinhela caída, com reza e dois "Plásticos Sabiá". Eu ri.
 O tempo passou e eu me mudei de volta para o interior de São Paulo, vindo depois para Niterói, a mais de vinte anos.
 Antes de me mudar, tinha virado maconheiro, e a mãe do Pierre fez ele parar de andar comigo por isso.
 Fiz outras amizades no bairro , e nunca mais vi o Pierre, me mudei e nunca mais parei na igreja ou na esquina, pois esta havia ficado perigosa , e aquela chata.
 Mas ainda hoje, pensaria duas vezes antes de olhar numa portinhola de porta, se acordasse perto da meia noite. Acho que nem mesmo no olho mágico do corredor do apartamento. A menos que eu quisesse mesmo, me juntar de vez ao Homem Alto.

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