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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A FAMÍLIA DE JOÃO

  João era um profissional muito orgulhoso. Bem sucedido em um negócio de família, tinha o prestigio que todos gostariam de ter entre os seus. 
   Não tinha que trabalhar todo o dia . Ganhava um bom dinheiro e tudo ia muito bem para ele.
   Mas não para sua freguesia.
   É que João era de um a tradicional família de bandidos. O terror dos trens da central.

   Disputava com seu pai, que também tinha orgulho da profissão, o título de maior ladrão de trem do estado do Rio de Janeiro. Mas seu pai nunca acreditou que um dia seu filho iria superá-lo. Dizia que para isso ele teria que comer muito feijão.

   E ele comia, fazia cada vez roubos mais ousados, para assim ter mais fama.

   Sua mãe no entanto não era ladra. Herdara do pai uma profissão diferente, mas igualmente, senão ainda mais, rentável.  Era traficante de marijuana, sim a velha erva de arranhar pulmão e entortar cabeças.

   Usava também os mesmos trens para fazer suas entregas. Ia vestida normalmente como uma simples dona de casa, escondendo na sua bolsa de feira alguns quilos da erva-doce que não vende no mercado, e seu trinta e oito cano curto com cabo de madrepérola, que fora dado como presente de aniversário de casamento por seu marido.

   Como se vê, era uma família feliz que trabalhava unida.
   Numa dessas tardes em que João envergava seu uniforme de ladrão, uma máscara de esqui, muito parecida com a que seu pai e todos os outros 157s do rio usavam. Estava ele rendendo sua freguesia como de costume. Tirava seu relógios, esvaziava seus bolsos, dava um grito aqui e outro ali, só para manter a disciplina.
   E bolinava as mulheres que fossem bonitas, afinal ele era solteiro e procurava uma alma gêmea.

   Achava que esta teria sindrôme de Estocolmo, pois ele iria conhecê-la num roubo.

   Era seu primeiro encontro ideal. Ele a roubaria, se apaixonariam a primeira vista e se casariam. Ele ensinaria para ela a profissão de sua mãe e teriam juntos um casal de pequenos delinquentes. 
   E foi por essa distração, enquanto apalpava uma linda mulher de olhos verdes, que ele não reparou que na última parada, um outro mascarado subiu no trem e vinha na direcção de João, arrecadando a parte que este ainda não havia limpado.

   Quando chegaram a uma distancia menor e cruzaram os olhares, na adrenalina que era o roubo entre tantas pessoas espremidas, João não pensou duas vezes, mandou bala no mascarado.

   E já foi, sem culpa , mas puto, ver quem era o vacilão que queria roubar "seu trem".

    Ao tirar a mascara do rival , soltou um grito , que foi abafado pela buzina do trem.
    -PAAAAAAIIII!!!!!!!

     Sim ! era seu pai que havia levado o tiro!

     Levantou-se horrorizado com o que havia feito.

     Em um dos bancos, rezando para que não fosse assaltada , por causa da carga de sua bolsa, sem saber realmente o que se passava estava sua mãe. Que após ouvir o tiro levantou-se para ver o que acontecera. E viu apenas um mascarado se levantando e seu marido, desmascarado, caído ao chão.

     Pegou o seu revolver na bolsa e atirou no assassino de seu marido para vingálo.

     Viu que o tiro pegou nas costas antes de virar-se para correr.

     E foi então que João virou-se sentindo o gosto do seu próprio sangue e viu uma mulher, que corria com um revólver na mão.

     E atirou para vingar- se por si mesmo, acertando-a também nas costas.

     Ao chegar cambaleando para ver quem era sua última vítima, por entre as pessoas que gritavam e choravam abaixados por causa dos tiros, viu o cabo de madrepérola, que reconheceu de imediato, antes mesmo de ver o rosto da mulher, que caíra de bruços. E sem ter forças para gritar de horror um a segunda vez, caiu finalmente. 
    Jamais o rio teria novamente uma família tão talentosa e tão unida. De profissionais dedicados e apaixonados por seu trabalho. De carinhosos presentes e disputas amigáveis. Coisas que excediam a bizarrice do ofício escolhido por tal família.

     O trem, simplesmente seria lavado do sangue que ficou no chão. Mas para sempre ficaria impressa. Na história do estado do Rio de Janeiro, através das páginas do jornal O Povo. A história da família de João.

      O crime não compensa...




Um comentário:

  1. essa histótria é baseada numa música que o amigo Pedro Ivo, de Pindamonhangaba me ensinou.

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