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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

o maior orgão(2, o cérebro)


 -Tô em casa. Tava meio perdido mas já me encontrei...

 -Como assim?
  -Olha, eu vou precisar de um tempo para me concentrar numa idéia. Não posso dizer nada agora, mas recebi seu convite no mensageiro instantâneo.Tentarei te manter informada por ele.
 -Mas eu sou sua amiga! Otávio!
 Desligou.
 Seu olhar permanecia estranho.
 Caminhou a té a cozinha e foi direto para a geladeira.
 Normalmente parava olhando para dentro dela para pensar, mas dessa vez, começou a tirar todo o lixo que se acumulava ali.
 Tinha muita comida estragada. E no meio. Um pudim intacto.  
 Era o pudim da Vovizinha.Nome que deu a sua vizinha que volta e meia aparecia sorrindo, com algum doce nas mãos. Dizendo que ele estava magro, como se fosse sua vó.
 As vezes ele comia , pois eram deliciosos, mas as vezes a depressão o deixava sem fome. O estranho é que o pudim da Vóv nunca estragava.
 Havia lido, em algum lugar da Internet, que havia um tipo de configuração energética , que dependendo da forma como eram postos os ferros de um prédio, e sua posição em relação a linhas elétromagnéticas da terra, fazia com que houvesse uma mais rápida putrefacção de alimentos.
 Tinha sido recomendado a ler tal artigo por um morador antigo do prédio, assim que se mudou para ali, fazia poucos anos.
 O prédio todo era meio que um surto de esoterite. Com imagens e baguás por todas as portas que via.
 Otávio era cético não acreditava em nada disso.
 Mesmo assim gastava mais com comida que todos os seus vizinhos. E por isso era chamado carinhosamente, pelos amigos que fizera no prédio, de Mister Mercado, por viver carregando compras.
 Pôs o pudim da Vóv num lugar seguro , pra comer depois. E fez uma faxina geral na casa, começando pela geladeira.
 Após terminada a limpezacomeu com gosto, o pudim da Vóv. Normalmente, teria ido dormir pra no outro dia começar seu sofrimento diário no trabalho. Mas não, pegou o pouco de comida boa que restava no armário, pois ali então tudo estragava a jato. E comeu como se não tivesse comido nada antes. 
 Sentindo então a letargia da saciedade, foi dormir.
  No dia seguinte, acordou sem despertador e não foi trabalhar, começou a rotina de muitos depressivos e compulsivos por comida. Chamou o comida delivery pela Internet. Gastou todo o dinheiro que tinha ,não estava pensando em ir a lugar nenhum. Encheu o armário de comida ,depois de ganhar um "bom dia mr. mercado" do vizinho. E só pra garantir, dessa vez pôs o tal do baguá, que ganhara de presente, de um dos vizinhos na porta.
 E comia, via TV, olhava a net, dormia, comia de novo.
 Estranhamente começou a ver sites de tatuagem. De direito do trabalho. De feng shoi. E comer, e ver TV, e dormir.
 Acordava no meio da noite, para furtar a si mesmo, assaltando a geladeira e ver TV, navegar na net.
 Sua barba crescendo junto com seu cabelo, dava um tom cada vez mais insano aquele olhar.
 Parou de atender telefonemas e mesmo amigos na net só via agora de vez em quando e sem CAM. Só ia engordando e se enchendo de informações, e os dias iam assim passando.
 Pela  mesma internet, viu na página de departamento pessoal do seu trabalho que fora demitido.
 Vestiu uma roupa, como todas agora, muito apertada e foi a um advogado que pesquisara no seu passatempo preferido. Era um famoso advogado trabalhista da cidade.
 Isso nos leva ao emprego de Otávio.
 Já trabalhava naquela firma á quase dez anos, apesar da pouca idade . Entrou como estágiario.
 A firma era de consultoria e aquisições de imóveis.
 Foi quando conheceu Patrícia.Ela era um sonho. Seu maior incentivo na confusa carreira. Tinha olhos inigualáveis. Poderia ficar horas fitando-os, se não abaixasse seu olhar toda vez que ela lhe direcionava o seu. Ficava então imaginando que ela estaria olhando suas roupas, mais humildes. Ou seus óculos remendados. Corava.
 Entraram juntos no estágio, mas ela era filha do patrão. Enquanto a grana do estágio o ajudava a pagar as contas, para ela pagava o último vestido da semana.Trabalhava para ter uma vida útil e não para viver. Simplesmente não precisaria trabalhar se quisesse. Mas que bom que queria. E era espirituosa, engraçada, inteligente, perfeita.
 Por ficar pensando tanto em sua presença, não conseguia ouvir tudo que ela dizia, e assim, ficava cada vez mais intimidado por aquela magnífica presença. Por isso, vivia se distanciando dela.
 Por causa de uma formação social tão cética quanto religiosa, o pai professor de biologia e a mãe professora de catecismo. Não acreditava em grandes reviravoltas da vida. Muito menos em amor entre pessoas de classes sociais diversas. Paty nem via tais classes entre eles, acreditava no potencial de Otávio.
 Os primeiros anos foram muito bons. Era elogiado pelos chefes e sempre tinha bons resultados nas tarefas do dia a dia. Foi quando terminou seu estágio que começou seu tormento.
 Conseguiu a vaga, mas junto veio o portador do seu suplício.
 Marcos era um pouco mais velho. Não tinha tanta formação como Otávio,mas era filho de um amigo pessoal do patrão e agora, seria seu chefe. Aquele que decidiria se ele ficava ou saia da empresa.
 Marcos além de estudo, também não tinha muito talento, e ainda menos tato.Era um cavalo. Todos tinham medo dele quando estava de mau humor. Otávio era seu alvo preferido. Com piadinhas e gritos, fazia-o  sentir-se um saco de pancadas psicológico. Quando viu que Otávio era competente, começou a explorá-lo.
 No começo pedindo, como favor, que ele fizesse alguns dos seus afazeres. Prometendo que falaria dele na frente do patrão, pois era da casa. Mas só falava de si mesmo. Depois, com a maior cara de pau, já considerava função do pobre fazer seu trabalho.
 A cada dia Otávio o via com mais tempo livre para ficar dando cantadinhas em Paty. De quem por elos de família era amigo. Enquanto ele entrava num redemoinho para cumprir a suas funções e as do chefe.
 Um dia, não conseguiu cumprir nem seu prazo, nem o do chefe, para uma importante apresentação.
 Este que nunca falava dele. Neste dia lhe deu honras públicas pelo erro. E ainda por cima,
após isso, teve que escutar o sermão do chefe ''cheio de razão'' em sua sala.
 -Você me ferrou! Se fizer isso de novo, vai perder esse emprego porcaria que tem. E dizendo isso deu-lhe um pescotapa.
 Ele, que estava encolhido e com a cabisbaixo na cadeira, ao levantar a cabeça viu que as persianas da sala do chefe estavam levantadas. Todos viram a cena. Ouviram o tapa. Viram como Otávio saiu morto daquela sala e se sentou no seu box, de onde só se levantou as cinco em ponto para nunca mais ser visto ali.
 Ia pra casa se matar.
 Ao acabar de ouvir a explanação do advogado, que mais parecia um recitador de cordéis de tanta eloquência, O juiz fez o Marcos chorar na audiência.
 Otávio foi indenizado regiamente pelos danos morais.Marcos perdeu o emprego, mas continuou rico, o berço de ouro lhe serviu de seguro à incompetência.
 Otávio pegou dois bolões de dinheiro e foi pra casa. Parecia que ia ficar satisfeito, mas não.
  continua...






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