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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

o maior orgão(3, o coração)

 Foi para casa e continuou comendo. Na verdade sua voracidade até cresceu. 
 Não atendia mais o mensageiro instantâneo, nem para falar com Paty. Ficava pesquisando a Internet e comendo.
 As vezes ria sozinho. Ria pra TV. Ria pro computador.
 Até que um dia sua balança do banheiro estourou.
 Vestiu então um robe, que era a única coisa que ainda lhe servia, estava enorme. Passou a mão num dos bolos de dinheiro, e foi ao melhor tatuador da cidade. Ficou ali por horas combinando o preço e desenhos de tatuagens, enquanto mostrava as pernas, braços e costas, muito brancas, pro tatuador. Por fim, passou o bolo de dinheiro pro tatuador,

que entrou mais uma vez na loja , e saiu com ele para ir de táxi para sua casa,

levando um monte de equipamentos de tatuagem. 
 Ficaram ali por dias, mais de uma semana.
 Agora sim o visual estava completo .
 Deitado, com dores por causa das tatuagens, Otávio era a imagem da loucura planejada, totalmente realizada. Tinha, apesar da dor, um sorriso de quem conseguiu o que queria.

 -Agora é descida...Deixou escapar.

 Sangue escorria das frescas tatuagens, tingindo de vermelho seus lençóis e sua cama.

 Nos próximos dias mudaria de atitude. Ainda com o brilho nos olhos começou a mudar seus hábitos. Começou a fazer dieta. Isso mesmo, dieta.
 Fazia exercícios e continuava na Internet, Mas agora num ritmo frenético. Discutia e gesticulava com a CAM ligada. Era o único momento em que ligava a CAM e ficava sem o robe, só de sunga. Exibindo seu enorme corpo cheio de informações. Volta e meia soltava um grito de alegria.
 Começou a se comunicar com Paty de novo. A medida que criava intimidade com sua alma. Olhava pra sua foto no messenger. Uma foto em que estava, como que olhando diretamente para o fotógrafo, com aqueles olhos inigualáveis.

 Olhando para aquela foto, aprendeu a não abaixar os olhos, ao trocar olhares com ela. Para quando estivessem, enfim, frente a frente. 
 Numa tarde, avisando apenas para ela o que faria, pegou o outro maço de dinheiro, e foi ao cirurgião mais bem conceituado da cidade.

 Depois de horas vendo num quadro, como colocariam um grampo no seu estômago,

para que ele emagrecesse rápida e confortavelmente.

 Passou o maço pro cirurgião e se internou na mesma tarde.

 Após grampeado, medicado e enfaixado. Voltou para casa.

 E agora dia após dia, se adaptava a um estômago diminuto. Só líquidos e porções mínimas de comida sólida bem mastigada. 
 Conforme ia emagrecendo, sua pele se enrugava e suas tatuagens encolhiam,

perdendo a forma, e mesmo o sentido de beleza que exprimiam, como bexigas murchas de aniversário, lembrando os melancólicos fins de festa infantil. Onde as crianças vão embora felizes, dormindo no colo dos pais cansados.
 Otávio já não ligava a CAM e nem discutia por suas agora disformes tatuagens. Apenas dava relatórios de sua saúde aos que importavam.
 Depois de emagrecer de tudo, voltou então ao mesmo cirurgião.

 Depois de horas ouvindo como seria retirado o excesso de pele, preservando sua aparência, assinou um recibo final e se internou pela última vez naquela clínica.

 Na sala de cirurgia o médico cortava , esticava e costurava a pele de Otávio,
e jogava o excesso num balde cheio de líquido, como se fosse lixo.

 Os aparelhos registraram um desequilíbrio dos batimentos, pressão sanguínea caiu.Começava um movimento estranho naquela sala. Otávio estava morrendo.

 Patrícia rezava em seu oratório. Uma lágrima escorreu de sua face, enquanto murmurava o nome do amado.

 Passados alguns dias do evento sinistro, Paty vestia um vestido preto. Em sua mesa de cabeceira, um convite preto de letras douradas.

 Ao entrar no teatro decorado, viu como seu amado virtual era conhecido. Haviam pessoas tatuadas e vestidas estranhamente.

 Também dava pra ver que eram riquíssimas, pelas jóias que usavam. Uma mulher com feições orientais e vários seguranças, se abanava com um leque, mostrando no anel,
 um rubi em formato de coração, do tamanho de um olho humano em sua mão.
 Havia artistas internacionais e cineastas também.
 No palco um púlpito.
 Ao soar de um sinal, todos fizeram um silêncio solene.
Ao abrir das cortinas, surge Otávio!
 Magro, barbeado, mas com os cabelos compridos. O que mostrava, que apesar de ser a mesma pessoa, era agora uma pessoa totalmente diferente. Vestia um smooking
 Atrás de si, oito telas cobertas, com elegantes mulheres ao lado de cada uma.
 -Senhores, a coleção o maior órgão do homem!
 Ao dizer isso as mulheres desnudaram as oito telas.
 Eram as tatuagens de Otávio. Totalmente preservadas e esticadas. Gigantescas e imponentes.
 -Os lances começarão em quinhentos mil dólares.
 Deu a primeira martelada e entregou o martelo ao leiloeiro.
 O auditório ficou como uma bolsa de valores , os valores subindo, enquanto as pessoas se desesperavam para adquirir as telas.
 O tatuador ria sem parar daquela sociedade excêntrica, de como a pele tinha mais valor que pensava, e também seu trabalho.
 Do fim do teatro. Vestindo também um smooking preto, ficava a cada grito mais famoso.
 Já em casa com sua bela Paty nos braços, Otávio tomava uma taça de cognaque ao fogo da lareira digital, de seu recem  decorado apartamento.
 Olhavam para a única tela que não tinha vendido. Em que Paty parecia olhar diretamente para o tatuador, com aqueles olhos inconfundíveis. Enquanto passava os olhos em um dos contratos de estúdios de cinema, para filmar sua biografia.
 Tinha ficado quase-morto e passado por uma experiência paranormal. O que lhe rendera convites extras para a TV para falar disso também.
 Ficou conhecido no mundo inteiro.
 Paty foi para o quarto.
 E Otávio, antes de segui-la, foi ao banheiro. Escovou os dentes com a porta do armário aberta. Pensava, olhando para a água que escorria, no real sentido do nome de sua coleção.
 Que a pele pesava mais, mas o cérebro é que executava os planos.
 Que o cérebro pesava mais, mas era o coração que dava o motivo.
 O poder de um amor verdadeiro.
 Paty sempre fora sua musa.
 Do momento em que decidido a se matar, recebeu seu convite para o mensageiro instantâneo, com aquela foto divina em exibição, ao momento em que desistiu disso para homenagear seu amor, com uma tatuagem de seu rosto sobre seu peito,e dali ao momento em que decidiu engordar para que ela fosse maior, e ao momento que por esperar para uma conversa on, viu que uma tatuagem tinha sido vendida por cem mil dólares no exterior, ao momento em que arquitetou todo o plano.
 Sempre fora seu coração apaixonado que lhe dera a força,para aguentar do fastio à fome, da dor ao prazer.
 O coração é o maior órgão.
 Digam os cientistas o que quiserem.
 Fechou a porta espelhada do banheiro e olhou para sua imagem no espelho e conferiu as finas cicatrizes que logo sumiriam.
 E lembrando-se da amada à espera no quarto, se sentiu muito feliz com sua vida.
 E sorriu para si mesmo no espelho.
 Mas de repente seu rosto assumiu uma expressão estranha. Tinha novamente um olhar que se assemelharia, num desenho animado, á uma lâmpada acesa sobre a cabeça...
                                                          FIM

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